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Celso Furtado nasceu em 26 de julho de 1920, em Pombal (Paraíba) e faleceu em 20 de novembro do ano passado no Rio de Janeiro. Filho de Maurício de Medeiros Furtado, de família de magistrados, e de Maria Alice Monteiro Furtado, de família de proprietários de terra. Foi casa com a jornalista Rosa Freire d’Aguiar.Fez seus estudos secundários no Liceu Paraibano, em João Pessoa, e no Ginásio Pernambucano, no Recife. Bacharel em Direito pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (1944), Doutor em Economia (1948) pela Universidade de Paris (Sorbonne). Estudos de pós-graduação na Universidade de Cambridge, Inglaterra (1957). Participou da Força Expedicionária Brasileira durante a Segunda Grande Guerra. Foi técnico de Administração do Governo Brasileiro (1944-45). Como diretor da Divisão de Desenvolvimento da Comissão Econômica para América Latina (1949-57), contribuiu de forma decisiva, ao lado do economista argentino Raúl Prebish, para a formulação do enfoque estruturalista da realidade socioeconômica da América Latina; foi diretor do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). No Governo JK, elaborou o Plano de Desenvolvimento do Nordeste, que deu lugar à criação da SUDENE, órgão que dirigiu por cinco anos (1959-64). No Governo João Goulart, foi o primeiro titular do Ministério do Planejamento (1962-63). Com o golpe militar de 1964, teve seus direitos políticos cassados por dez anos, dedicando-se então à pesquisa e ao ensino da Economia do Desenvolvimento e da Economia da América Latina em diversas universidades como as de Yale (EUA) , Sorbonne, entre outras. Com a redemocratização, foi embaixador do Brasil junto à Comunidade Econômica Européia (1985-86), em Bruxelas, e ministro da Cultura do Governo Sarney (1986-88), quando elaborou a primeira legislação de incentivos fiscais e fez a defesa da identidade cultural brasileira. Foi membro do Conselho Acadêmico da Universidade das Nações Unidas (Tóquio, 1978-82), entre outros organismos da ONU. Considerado um dos principais intérpretes do Brasil, Celso Furtado, autor de Formação Econômica do Brasil, sua obra mais conhecida, e tido como uma reserva intelectual da nação, se autodefinia como um “inconformado”. “É preciso lutar sempre”, disse certa vez, complementando: “Nunca me conformarei com o mal, a miséria, a má distribuição de renda”. |
Voz viva da cidade de Goiás, personagem e símbolo da tradição da vida interiorana, Cora Coralina nasceu em 20 de agosto de 1889, na casa que pertencia à sua família há um século e que se tornaria o museu que hoje reconta sua história. Filha do Desembargador Francisco de Paula Lins dos Guimarães Peixoto e Jacinta Luíza de Brandão, Cora, ou Ana Lins dos Guimarães Peixoto (seu nome de batismo), cursou apenas as primeiras letras com mestra Silvina e já aos 14 anos escreveu seus primeiros contos e poemas. Tragédia na Roça foi seu primeiro conto publicado.Em 1934 casou-se com o advogado Cantídio Tolentino Bretas e foi morar em Jabuticabal, interior de São Paulo, onde nasceram e foram criados seus seis filhos. Só voltou a viver em Goiás em 1956, mais de 20 anos depois de ficar viúva e já produzindo sua obra defintiva. O reencontro de Cora com a cidade e as histórias de sua formação alavancou seu espírito criativo. Tradições e festas religiosas, a comida típica da região, as famílias e seu “causos” motivavam a escritora fazer uma ponte entre o passado e presente da cidade, numa tentativa de registrar sua história e entender as mudanças. Nas suas próprias palavras: “rever, escrever e assinar os autos do passado antes que o tempo passe tudo ao raso”. Com a mesma rica simplicidade de seus personagens, Cora fazia doces cristalizados para vender. Seu primeiro livro, Poemas dos Becos de Goiás e outras histórias mais, foi publicado em 1965, e levou Cora, aos 75 anos, finalmente a ser reconhecida como a grande porta-voz de uma realidade interiorana já afetada pelo avanço da modernidade. O poeta Carlos Drummond de Andrade, surpreendido com a obra de Cora, escreveu-lhe em 1979: “(...) Admiro e amo você como a alguém que vive em estado de graça com a poesia. Seu livro é um encanto, seu lirismo tem a força e a delicadeza das coisas naturais (...)”. Cora Coralina faleceu em Goiânia a 10 de abril de 1985. Logo após sua morte, seus amigos e parentes uniram-se para criar a Casa de Coralina, que mantém um museu com objetos da escritora. |
Darcy Ribeiro nasceu em Montes Claros (MG), no dia 26 de outubro de 1922. Filho de um farmacêutico e uma professora, ele decidiu, ainda jovem, seguir a carreira de médico. Com esse objetivo mudou-se para a capital do Estado e ingressou na Faculdade de Medicina. Após três anos, no entanto, o jovem percebeu que seu interesse não era propriamente a fisiologia do corpo humano, mas o homem em si. Ele se mudou, então, para São Paulo, e se matriculou na Escola de Sociologia e Política. No ano de 1946, Darcy Ribeiro se formou em Antropologia.Seus primeiros anos de vida profissional foram dedicados ao estudo dos índios do Pantanal, do Brasil Central e da Amazônia. O antropólogo viveu 10 anos junto às populações indígenas e, durante esse período, escreveu algumas de suas principais obras. Um exemplo é “Diários Índios”, livro que reproduz as anotações feitas durante expedições realizadas entre 1949 e 1951, época em que trabalhava no extinto Serviço de Proteção aos Índios. Em sua relação de feitos também está a participação nas criações do Museu do Índio e do parque Indígena do Xingu. Como antropólogo, seu trabalho de maior impacto foi “Estudos de Antropologia da Civilização”, com mais de 96 edições em diversas línguas. Nos seis volumes que compõem seus ‘Estudos”, Darcy Ribeiro propõe uma teoria explicativa das causas do desenvolvimento desigual dos povos americanos. O último volume, “O povo brasileiro”, foi lançado em 1995, dois meses após o autor deixar o hospital onde estivera internado para tratamento de um câncer. Darcy Ribeiro também contribuiu de maneira significativa com outras áreas, entre elas a educação e a política. Criou universidades, centros culturais, bibliotecas e os Centros Integrados de Educação Pública (Cieps), escolas públicas de período integral onde as crianças, além de cursar disciplinas curriculares e praticar atividades esportivas, recebiam alimentação e acompanhamento médico-odontológico. Recebeu títulos de Doutor Honoris Causa das universidades de Sorbonne, na França, Copenhague, na Dinamarca, da República do Uruguai, da Venezuela e de Brasília. Na política, ele foi ministro da Educação no Gabinete Hermes Lima e, mais tarde, ministro-chefe da Casa Civil de João Goulart. Com o golpe militar, Darcy Ribeiro foi exilado. Ele retornou ao país em 1976 e, seis anos mais tarde, elegeu-se vice-governador do Rio de Janeiro. Foi, ainda, secretário da Cultura, coordenador do Programa Especial de Educação e senador da República. Nesse cargo, elaborou a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, que ficou conhecida como Lei Darcy Ribeiro. Darcy Ribeiro morreu aos 74 anos, no dia 17 de fevereiro de 1997, apenas 40 dias após Ter concluído seu livro de memórias, “Confissões”. |
Nascido a 7 de fevereiro de 1909, em Fortaleza, Ceará, Dom Hélder Câmara, foi o décimo primeiro filho de uma família humilde e numerosa, composta de treze filhos, dos quais somente oito sobreviveram, falecendo os demais de uma gripe que devastou a região no ano de 1905.Em 1923, ingressou no Seminário Diocesano de Fortaleza, onde fez os cursos preparatórios e depois Filosofia e Teologia. A partir de então começava a se destacar pela sagacidade em defender seus pontos de vista e admirado pela segurança das suas argumentações. Após o retorno do Brasil à democracia, em 1945, a Ação Católica Brasileira foi o grande tecido, a partir do qual os leigos edificaram sua cidadania. Articulada nacionalmente, a Ação exerceu um valioso papel evangelizador dentro da própria estrutura da Igreja, onde a figura de Dom Hélder se confunde com o próprio Movimento. Graças à Ação Católica Brasileira, a mensagem cristã foi semeada nas cidades e nos campos, nas escolas e nas universidades, nas fábricas e associações, entre adultos e adolescentes. Geradora de inúmeros outros movimentos, a Ação Cristã Brasileira, a partir do ideário de Dom Hélder, está a merecer uma análise mais profunda de estudiosos, diante das inúmeras lições deixadas para os projetos sociais e evangelizadores do novo milênio. Na condição de representante do episcopado brasileiro, Dom Hélder apoiou resolutamente o Movimento de Educação de Base, iniciativa dos católicos, no campo da educação popular, considerada inédita. O objetivo desse Movimento não era a alfabetização pura e simples do trabalhador rural. Tencionava oferecer uma educação que desenvolvesse a consciência política, social e religiosa dos participantes, que passariam a interpretar a sua condição de vida como resultado das injustiças existentes na estrutura da sociedade brasileira. O passo seguinte seria a luta pela transformação da sociedade por meio da ação comunitária dos trabalhadores. Uma cartilha do Movimento, denominada “Viver é Lutar”, elaborada sob a lúcida orientação de Dom Hélder Câmara, muito contribuiu para a ampliação da cidadania do povo brasileiro. Colocado no mesmo nível de Martin Luther King e de Gandhi, Dom Hélder empenhou-se profundamente em estabelecer a doutrina da Não-violência. Foi intransigente na defesa dos direitos humanos e feroz contestador do regime militar. Tinha o cuidado para que os pequenos não sucumbissem às garras dos torturadores da ditadura, nem que o movimento se radicalizasse no sentido da violência armada e mais uma vez os pequenos pagassem a conta, se faz transparecer em todos os documentos da Ação Justiça e Paz, de cujo movimento foi também um dos principais líderes. Assim era Dom Hélder, um homem evangélico, simples, sem firulas episcopais. E como tinha muita fé, jamais conheceu o medo. E amou de todo o coração essa Igreja que tanto quis ver renovada. |
O professor universitário e sociólogo Florestan Fernandes nasceu em São Paulo, no dia 22 de julho de 1920. Sua luta pela vida já na infância, para conquistar o próprio nome – já que a patroa de sua mãe o chamava de Vicente, por considerar que Florestan não era nome de pobre – e sobreviver começou aos seis anos, o que impediu de completar o curso primário e o levou a se formar no curso de madureza (supletivo).Era vendedor de produtos farmacêuticos quando, aos 18 anos, ingressou na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da Universidade de São Paulo em 1947, formando-se em Ciências Sociais. Doutorou-se em 1951 e foi assistente catedrático, livre docente e professor titular na cadeira de sociologia, substituindo o sociólogo e professor universitário francês Roger Bastide em caráter interino até 1964, ano que se efetivou na cátedra. O nome de Florestan Fernandes está obrigatoriamente associado à pesquisa sociológica brasileira. Com mais de 50 obras publicadas, transformou as ciências sociais no Brasil e estabeleceu um novo estilo de pensamento. Cassado pela ditadura militar, em 1969, deixou o país e lecionou nas universidades de Colúmbia (EUA), Toronto (Canadá) e Yale (EUA). Retornou ao Brasil em 1972 e passou a lecionar na PUC-SP. Não procurou reintegrar-se à USP, da qual recebeu o título de professor emérito em dezembro de 1985. Florestan esteve ligado ao Partido dos Trabalhadores (PT) desde sua fundação. Em 1986 filiou-se ao partido e exerceu dois mandatos de deputado federal (1987-1991 e 1991-1995). Florestan não via o destino da ex-União Soviética como o fim do socialismo e do marxismo, nem a globalização como a esperança dos excluídos – ao menos, dizia, enquanto “o capitalismo da fase atual não conseguir uma equação definitiva para a questão social”. Florestan Fernandes morreu aos 75 anos em São Paulo, mas o legado de suas obras e o feito de tornar a sociologia brasileira reconhecida em todo o mundo nos fazem pensar como o jornalista Florestan Fernandes Júnior, no fecho da carta escrita por ocasião do velório do pai: “Se existe mesmo céu, neste momento meu pai deve estar numa conversa boa com os amigos Caio Prado, Sérgio Buarque, Roger Bastide, Hermínio Sachetta e tantos outros. E quem sabe eles não estão iniciando agora uma nova revolução”. |
Considerada a militante do ideal e uma das mulheres mais inteligentes e audaciosas do século XX, Patrícia Rehder Galvão, ou simplesmente Pagu como era também conhecida, nasceu em 9 de junho de 1910, em São João da Boa Vista (SP). Era a terceira filha de Adécia e Thier Galvão França, trazendo nas veias o sangue dos imigrantes alemães e dos quatrocentões de São Paulo. Seus talentos começaram aflorar cedo, praticamente aos 12 anos, em 1922, época do grande marco cultural brasileiro, a Semana de Arte Moderna do movimento modernista, que protestava contra o domínio cultural e artístico estrangeiro, principalmente europeu que se alastrava no Brasil.Pagu sempre foi uma mulher à frente de seu tempo. Casada com Oswald de Andrade e com um filho, ela jamais limitou à rotina da vida doméstica e muito mais às incoerências partidárias do Partido Comunista. Sem desistir da luta e de seus ideais, começou a viajar pelo mundo como correspondente dos jornais “Correio da Manhã”, “Diário de Notícias” e “A Noite”. Na sua “volta ao mundo”, Pagu foi ao Japão, EUA, Polônia, China, França e Rússia. E suas viagens renderam frutos, pois acabou sendo a primeira repórter latino-americana a presenciar a coroação do Imperador de Manchúria (China). Através desse evento que ela obteve as primeiras sementes de soja para serem plantadas no Brasil. Separada de Oswald, Pagu dedicou a sua nova fase em sua vida ao jornalismo, à cultura e à família. Casa com o também jornalista Geraldo Ferraz, de quem tem seu segundo filho. Decide morar em Santos. Nos anos 50, ela ainda faz uma última tentativa de resgatar sua militância política, só que desta vez pelo Partido Socialista Brasileiro. Concorreu à Assembléia Legislativa, mas seu discurso não acabou agradando. Nele ela revelava as condições degradantes que foi submetida, que seus nervos e inquietações acabaram transformando-a “numa rocha vincada de golpes e amarguras, mas irredutível”. Não foi eleita. Pagu havia sido presae torturada durante a ditadura do Estado Novo. Nos últimos anos de sua vida, Pagu continua a trabalhar incansavelmente pela cultura. Morreu em dezembro de 1962. E para quem a admirar, restou apenas a mensagem que resume seu destino: ‘O escritor da aventura não teme a aprovação ou a renovação dos leitores. É-lhe indiferente que haja ou não, da parte dos críticos, uma compreensão suficiente. O que lhe importa é abrir novos caminhos à arte, é enriquecer a literatura com gérmens que venham a fecundar a literatura dos próximos cem anos”. Pagu foi revolucionária na arte, na política e na prática de vida. |